, ,

Américo Thomaz, o político e militar que tinha vergonha das suas origens ferreirenses

O jornalista Orlando Raimundo vai às origens do político que era filho de um campónio de Chãos

Américo Thomaz, o político e militar que tinha vergonha das suas origens ferreirenses

Nesta biografia pessoal, política e militar, de seu título “O Último Salazarista – A Outra Face de Américo Thomaz”, o jornalista e investigador Orlando Raimundo conta a vida de um adepto da monarquia absolutista, de origens humildes, um militar que em início de carreira foi preso, acusado de cobardia, por não se bater pela República, e acabou Presidente dessa mesma República, tendo ficado conhecido como o “corta-fitas” do regime de Salazar e figura patética do regime.

Era alvo de chacota pelo seu pouco talento para o discurso público, tendo várias “gaffes” suas ficado gravadas no imaginário popular, com destaque para frases como “É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive”, ou “Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei”, proferidas nas numerosas visitas e inaugurações que ocupavam a maior parte da sua actividade.

Segundo o jornalista, “durante os seus quase quarenta anos de vida política, desempenhou sempre o papel de facilitador das manobras da ditadura, quer activa, quer passivamente, por puro calculismo”

Entre alguns exemplos, a assinatura da deportação dos primeiros presos políticos para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde; o “papel activo” na consolidação do poder económico dos primeiros “donos disto tudo”, como Alfredo da Silva e a família Espírito Santo; o envolvimento e aproveitamento da “grande burla eleitoral do regime, em 1958”, e do assassínio de Humberto Delgado.

O livro de cerca de 300 páginas publicado em abril deste ano pela Editora D. Quixote começa com a história do filho do senhor António, um cidadão de Ferreira do Zêzere, que cresceu de pé descalço na pequena aldeia de Chãos e que mal chegou a ir à escola para aprender a ler e a contar.

Graças ao senhor António, seu pai, cidadão pobre e humilde de Chãos, que um dia foi para Lisboa com carta de recomendação trabalhar como Guarda na Tapada Real da Ajuda, Américo Thomaz teve o berço que nunca esperou nem era crível que tivesse.

Quando nasceu, a 19 de Novembro de 1894, seu pai, António Thomaz, já tinha conquistado a confiança do Rei D. Carlos como Guarda da Tapada Real da Ajuda e de todos os seus recheios.

Nos seus anos de inocência, Amélia D’Orleães, a princesa de França tornada Rainha de Portugal, que visitava com regularidade a Tapada da Ajuda, deu pela existência do filho tardio de António Thomaz e fez dele seu protegido mudando-lhe a vida e o destino.

Quase no final do livro, Orlando Raimundo conta uma história deliciosa voltando a convocar a terra de nascimento do pai do Presidente da República dos anos de governo de Salazar que, segundo o jornalista, nunca deixou de ser monárquico, talvez pelo efeito sentimental da protecção que lhe foi dada em criança pela Rainha D. Amélia.

Conta Orlando Raimundo que o último compromisso de Américo Thomaz, que ficou por realizar, era uma visita de Estado a Chãos, onde iria assinalar a chegada da luz eléctrica com o corte de mais uma fita.

O convite foi formulado pelo então presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, António Soeiro Silva, que dias antes da revolução dos Capitães de Abril, compareceu na audiência no Palácio de Belém com uma comitiva de “benfeitores”, onde foi acertada a visita de Américo Thomaz e de sua mulher.

Com a revolução dos Capitães de Abril a acontecer a poucos meses de cessar funções, uma vez que determinara deixar o cargo quando completasse 80 anos, foi então demitido do cargo e expulso compulsivamente da Marinha, tendo sido enviado para a Madeira, donde partiu para o exílio no Brasil.

Em 1978, Ramalho Eanes permitiu o regresso de Américo Thomaz ao nosso paiís, onde faleceu a 18 de setembro de 1987, numa clínica em Cascais, após uma cirurgia.

Durante a leitura deste livro é possível descobrir o pretexto que é a vida de Américo Thomaz (“Thomaz com th e z, que sugere uma ascendência aristocrática que de verdade nunca existiu”), com o autor a pincelar a biografia com a história de outros personagens sinistros do regime, como foi o caso de Rosa Casaco, um dos mais conhecidos agentes da antiga polícia política do regime de Salazar e Caetano.

Sinopse de “O Último Salazarista – A Outra Face de Américo Thomaz”

Américo Thomaz, o último Presidente da República do Estado Novo, é frequentemente recordado como uma figura patética: o caricato corta-fitas do regime fundado por Salazar com o apoio dos militares que cometia gafes e falava com exasperante lentidão.

Bastará, porém, acompanhar a biografia que lhe traça Orlando Raimundo para perceber que essa é uma perspectiva manifestamente redutora e que o seu papel como facilitador das manobras da ditadura ao longo de quase quarenta anos de vida política teve consequências bastante mais nefastas do que as anedotas que sobre ele se contam fariam adivinhar.

Entre muitos episódios em que participou e que condicionaram a história portuguesa do século xx, a sua intervenção foi determinante quando traiu o general Botelho Moniz, fazendo abortar o golpe que iria derrubar Salazar, e no momento em que obrigou Marcello Caetano a assumir o compromisso solene de não abrir mão das Colónias. Como nos diz o autor do presente volume, «na procissão dos devotos do salazarismo [Thomaz] esteve sempre na linha da frente, a segurar o andor».

Deste modo, justifica-se amplamente dar a conhecer essa outra face de Américo Thomaz e revelar dados menos conhecidos deste Presidente da República que – pasme-se – era um adepto da monarquia. Até para evitar que a tragédia possa dar lugar à farsa.

Américo Thomaz, o político e militar que tinha vergonha das suas origens ferreirenses

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sport Club anuncia renovações e contratações para a nova época

Futebol: Sport Club anuncia renovações e contratações para a nova época

Estacionar em lugar de deficientes passa a ser contraordenação grave

Estacionar em lugar de deficientes passa a ser contraordenação grave