Os incêndios, o medo e a colher de pau…

Artigo de Opinião

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Estamos numa época do ano em que normalmente a meteorologia atinge-nos de maneira diferente, com mais calor, com menos humidade, com mais dureza e menos cuidado.

Há poucos dias, o nosso país e o mundo recordaram a tragédia que atingiu aqui bem perto Pedrogão Grande, Figueiró dos Vinhos e muitas localidades vizinhas, chegando a roçar aqui bem perto as margens do Zêzere.

Foi um dia em que o nosso concelho também não foi poupado à força destruidora das chamas, de mais um dos muitos incêndios florestais que devoraram o nosso país de norte a sul…

No meio de tudo isto, quase todos opinaram, mas poucos foram os que realmente fizeram alguma coisa, enquanto o país ardia.

Depressa se apontaram dedos… era por causa das florestas que não estão limpas, é do problema da interioridade e da fuga massiva de população para o litoral, é daquele indivíduo que deixou fugir a queimada, é dos gajos que andaram a plantar eucaliptos, é de quem anda com um isqueiro no bolso ou do piloto de uma avioneta que passou ali ainda há pouco…

Muitos dos que falaram, podem ser considerados os “especialistas de sofá”, que absorvem realidade pela caixinha mágica, pelas redes sociais, vendida muitas vezes como a verdade absoluta, sem refletir o que se passa no terreno.

A verdade é que depois do país arder como ardeu em 2017, algo muito grande tem de ser feito, pois se queremos resultados diferentes, temos de construir processos diferentes.

Mas espalhar o “terror”, o medo e a desinformação, anunciar coimas elevadas como medida de prevenção, não parece que vá apagar incêndios, que vá poupar vidas humanas… Afinal quantas pessoas morreram já este ano em queimadas? Ou em acidentes de trator por andarem “de aflitos” a limpar terrenos sem realmente conhecer o que lá se encontra?

Falava-se que não podia haver árvores a menos de cinquenta metros de casa, então muita gente não quis saber se a árvore que ali estava podia ou era para ser cortada. Era um árvore e estava a menos de cinquenta metros, por isso estava condenada a ser abatida, pois a coima superava o valor daquela oliveira ou daquela laranjeira.

Assim como árvores que arderam, todas teriam de ser abatidas, caso contrário, mais coimas seriam anunciadas.

Os terrenos eram para ser limpos, especialmente numa área em torno das casas ou povoações, “mas se quer o terreno limpo, tem de pagar” e uma vez mais, um terreno que era limpo por duzentos ou trezentos euros no ano anterior, passou a custar setecentos ou oitocentos euros.

Mal ou bem os terrenos eram limpos, quanto mais não fosse, era carteira de alguém ficava limpa com o medo das coimas.

E isto porque era março, depois passou para maio, mas no meio disto tudo, com a meteorologia que tem brindado o nosso país este ano, o mato já cresceu e muitos dos terrenos já estão em modo de serem limpos uma vez mais. E agora, quem vai pagar?

Como se falava ainda há pouco tempo, por causa da proteção de dados em que muitas empresas com medo das coimas, apagaram as bases de dados quase por inteiro, fez recordar as histórias das colheres de pau nos restaurantes, quando a ASAE começou a ter projeção mediática, com os restaurantes a deitarem fora as colheres de pau para não terem de pagar coimas…

Com a história da prevenção contra incêndios, foi usada a mesma bitóla, a velha história da colher de pau… mas chamam a isto é tudo de prevenção, de segurança, num desgaste acentuado das palavras até à exaustão.

No meio de tanto blá blá blá, tudo apareceu o conceito da Aldeia Segura, algo que muita da população, mais uma vez, ainda não entendeu muito bem e muitas vezes por não quererem procurar mais informação.

Dizem que esta será outra medida de prevenção, de segurança, de que algo vai ser feito, mas vai ser feito ou já devia ter sido feito? Ou será que o “oficial de segurança da aldeia” vai ser mais um para colocar na folha de “abate” caso as coisas corram mal?

Mas as aldeias não são seguras? Realmente talvez não sejam, pois a população ainda não está consciencializada dessa questão. E que medidas foram realmente tomadas para limpar a floresta e terreno em volta das aldeias?

Lá pelo meio, aparece um “entendido” do outro lado do charco, da terra do Tio Sam, a dizer que os nossos bombeiros trabalham mal e que tem culpa no cartório. Talvez tenha, pois o nosso sistema assenta numa base de voluntariado, desgastada e há muito a precisar de reforma.

Mas vindo de alguém proveniente de um país em cujos incêndios chegam a durar meses, podemos ficar a pensar em muita coisa… E quanto dinheiro o nosso Estado pagou a esse suposto entendido para dizer tal coisa?

Mas resumindo e não concluindo, foi falada muita coisa, foram anunciadas coimas, foi implementado o medo, mas qual será o resultado prático de quando tudo voltar a arder?

Num país onde temos mais ignições sozinhos, que muitos dos países europeus em conjunto, é sinal que algo está errado, é sinal que temos de rever o que fazemos, antes de implementarmos novas medidas, pois o erro vai persistir e o país vai continuar a arder… e o medo vai continuar!

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